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Academias e COVID-19: 10 medidas para torná-las mais seguras

Academias e COVID-19: 10 medidas para torná-las mais seguras

Ao longo dessa pandemia um dos setores mais afetados foi o do fitness, especialmente as academias.

Como a pandemia foi desencadeada por um vírus que ataca o sistema respiratório, sua proliferação está diretamente ligada ao ato de respirar, e não existe lugar onde isso seja feito com mais volume e intensidade do que em uma academia, local de se realizar esforço físico.

O esforço físico realizado em um local relativamente fechado aumenta a temperatura (pelo maior gasto de energia corporal) e a umidade (pela respiração e suor) do espaço, fazendo dele um ambiente extremamente favorável a contaminação. A própria OMS já destacou isso.

E pra piorar ainda mais, um dos modelos que mais crescia dentro do setor no Brasil era o da “low-cost”, que tem como um de seus fundamentos, uma alta taxa de ocupação por metro quadrado, reduzindo as distâncias e aumentando o risco de contaminação.

Isso é tão verdade que diferentes órgãos ao redor do mundo soltaram notas dizendo que as academias são locais arriscados, justamente pelas características que citei acima, e que dentre os setores que podem retornar ao final da pandemia, esse seria um dos últimos.

Concordo plenamente!

Especialmente se as academias continuarem no modelo de trabalho atual, mesmo com as “medidas” de higienização, que vocês vão perceber ao longo desse texto, que não ajudam em quase nada na segurança.

Por que as medidas adotadas hoje nas academias não ajudam muito?

Bom, vamos lá. A primeira coisa que deveríamos fazer para achar uma solução seria compreender o problema. E claramente o setor não conseguiu fazer isso muito bem.

Antes de mais nada precisamos entender como o vírus é dissipado.

Ele vai de uma pessoa até a outra pelo ar, “apoiado” nas pequenas gotículas de água que expiramos em cada um de nossos ciclos respiratórios. Essa água sai de nossos pulmões pois quando o ar entra ele é umectado, ação necessária para conseguir fazer com que o oxigênio seja retirado e colocado dentro do sangue.

Essas gotículas podem ficar pairando no ar por alguns segundos ou até algumas horas, dependendo do fluxo de ar no local, sendo que podem ser inspiradas por outras pessoas nesse momento.

Além disso, elas podem ser depositadas em diferentes superfícies, entrar em contato com a mão de outras pessoas que, se levadas até os olhos ou a boca, podem ser absorvidas pelo organismo e infectar o indivíduo.

Então a grande preocupação deveria ser reduzir o tamanho da nuvem de gotículas, coisa que a gente não vê muito acontecendo. A única recomendação nesse sentido, é a utilização do uso de máscaras (que mais a frente também vamos discutir).

Um bom exemplo de medida pouco útil adotada é a do tapete sanitizante. A contaminação pelo COVID-19 a partir dos calçados já foi inclusive destacada pela OMS como muito improvável. Pode usar? Pode, tudo ajuda. Mas não ache que isso gere alguma proteção significativa.

Outra medida pouco eficiente é a utilização de termômetros a laser, aqueles utilizados na testa e sem contato. Novamente, a própria OMS destacou que eles não são capazes de identificar infectados, apenas quem está com a temperatura acima dos valores normais.

E existem centenas de motivos para a temperatura aumentar. Além disso, 80% dos infectados não vão apresentar nenhum tipo de sintoma, e vão passar despercebidos pelo monitor.

Existem ainda outros tipos de ações como a utilização de luz ultra-violeta e sprays de peróxido de hidrogênio (que na concentração utilizada é inútil e na concentração recomendada para matar o vírus, arriscado).

E quais medidas adotas são efetivas – ou parcialmente efetivas?

Três das medidas adotadas nesses espaços, que são bastante efetivas, são o maior distanciamento, o uso de máscaras e a higienização constante das mãos.

A higienização de longe (mas de muito longe) é a que melhor dá resultados. Isso evita que uma “mão infectada” entre em contato com a boca e olhos, dois dos três caminhos mais rápidos para a entrada do vírus no organismo, depois da via aérea.

As outras duas ajudam só parcialmente.

O distanciamento usado nas academias fica entre 1,5m e 2m. Isso contando que as pessoas vão permanecer nos equipamentos, e não vão circular pelos mesmos espaços com intervalos de segundos entre eles.

Lembrem-se: o vírus fica no ar conforme você respira e anda pelo local.

Esse distanciamento foi recomendado para ser utilizado em adição ao uso de máscaras e para ações de conversa em repouso. Baixa frequência e profundidade respiratória.

Claramente não é o caso numa academia. Esse distanciamento é melhor do que ficar encostado um no outro? Sim. Ele é seguro? Não.

Outra questão é o uso das máscaras. Apesar da OMS recomendar que não se utilizem máscaras durante o exercício, isso vale apenas para ambientes abertos (veja o infográfico mais embaixo).

Não confunda os contextos como muitos estão fazendo. Na academia tem que utilizar sim!

Entretanto, as máscaras foram testadas, novamente, em situações em que a respiração é lenta, a umidade dessa respiração baixa e sua frequência pequena.

Isso não tem nada a ver com o que acontece na academia.

Desse modo, sua efetividade despenca, e não tem como assumir que ela esteja te protegendo e protegendo aos outros pelo período de até 2h, conforme está sendo divulgado por vários órgãos.

Mas existe forma de deixar a academia mais segura?

Sim. Existem formas de deixá-la bem mais segura, mas é necessário adotar medidas que vão de encontro ao modelo de trabalho atual, é preciso sair da zona de conforto, rever todo o negócio. E nem todos estão dispostos a isso.

Vou colocar aqui abaixo vários pontos que seriam importantes, com as respetivas explicações. Alguns já são adotados, outros ainda não.

 

1 - Reduzir a quantidade de alunos por dia

Infelizmente essa não tem jeito, menos pessoas precisam passar pelo local diariamente. Quanto maior o fluxo de pessoas, maior a probabilidade de proliferação do vírus. Uma das formas de fazer isso de maneira eficiente é começar a trabalhar com agendamentos de horários, que parece ser uma excelente tendência para os próximos anos. Isso melhora a eficiência do espaço (você calcula a necessidade de funcionários em razão de uma previsão de uso) e aumenta a qualidade dos atendimentos.

 

2 - Obrigue o uso de máscaras

Alguns alunos ainda se recusam a utilizá-las, mas por menos efetivas que elas possam ser durante o esforço físico, elas ainda ajudam. Além disso, não existem riscos. Mesmo que seja desconfortável, não existem quaisquer prejuízos à saúde com sua utilização. E isso a OMS também já destacou.

 

3 - Reduzir o tempo na sala

Permitir permanências de 1h é perigoso. As academias deveriam limitar o uso em intervalos entre 30-45min, no máximo.

A frequência respiratória, a sudorese, tudo aumenta proporcionalmente à intensidade e tempo de esforço. Então limitar o tempo é aumentar a segurança. E já temos evidências suficientes para sustentar que uma prescrição de 30min pode ser perfeitamente eficiente.

Cabe aos professores melhorarem a forma com que montagem dos treinos é realizada, e assim fazer com que os alunos aproveitem mais o tempo na sala.

 

4 - Ajuste a prescrição

Existem diferentes formas de prescrever musculação, e essas formas impactam diretamente no fluxo da respiração.

Séries com maior duração, menor carga e menores intervalos tendem a aumentar a frequência cardíaca e respiratória. Sendo assim, treinos com séries mais curtas, mesmo que pesadas, e maior tempo de intervalo podem ajudar MUITO na redução desse aumento da umidade e calor do ambiente.

Além disso, incentive treinos que não são máximos. Destaque a importância da manutenção da saúde, não da quebra de seu recorde pessoal.

 

5 - Setorizar

A academia precisa ser “dividida” em várias “mini-gyms”. Pequenas academias dentro de uma só. A organização dos equipamentos por grupos musculares deve dar lugar a organização por espaços.

Em cada espaço, existirão máquinas para vários grupos musculares. Assim, um aluno que entra na academia não fica transitando pela academia toda, apenas por um espaço determinado. Isso tem dois propósitos: reduzir o contato (já que o aluno do espaço A não terá muito contato com o aluno do espaço B) e ajudar no monitoramento. Se um aluno do espaço A for infectado, você consegue saber quem passou por ali e descobrir quem pode ter sido o infectante e os prováveis infectados.

* a imagem acima é apenas ilustrativa, seria necessário racionalizar o espaço e a prescrição para a escolha dos equipamentos disponíveis em cada setor

 

6 - Equalize os treinos

Já que existirão setores, realize as prescrições de forma que os setores fiquem igualmente ocupados. Sem superlotação em um e baixa ocupação em outro. Além disso, alunos que tem prescrição externa, precisam também atender a essa recomendação e utilizar apenas um setor da academia.

 

7 - Exclua ou minimize o setor de cardio

De longe, mas de muito longe, o cardio é o setor mais perigoso. E o afastamento de 1,5m a 3m é irrelevante.

Uma pessoa conversando normalmente expira de 5L a 7L por minuto. Em um exercício contínuo e moderado, esse valor chega a 50L-60L/min. Isso significa que um aluno no cardio equivale a uns 8-10 alunos na musculação.

Bloquear o setor de cardio ou apenas permitir aquecimentos leves limitados a 10min seria uma opção bastante coerente.

 

8 - Permitir apenas aulas coletivas sem esforço

Um trabalho muito interessante na Coreia do Sul mostrou que mais do que o distanciamento, o esforço nas aulas coletivas parece ser importante. Eles perceberam que aulas de Zumba geraram uma taxa de infecção enorme, mas as de Pilates, nenhuma.

Aulas de alongamento, pilates no solo, mobilidade ou qualquer outra atividade de baixa intensidade, com relativo afastamento (2m a 3m), parecem ser seguras.

 

9 - Transfira o cardio para ambientes abertos

Feche o setor de cardio e realize atividades com essas características no estacionamento, com maior afastamento e sem a necessidade de máscaras.

Como falei lá em cima, a própria OMS destacou que seu uso em ambientes abertos é desnecessário. Incentive também que os alunos que moram próximos a academia venham caminhando ou de bicicleta e usem isso para fazer seu aquecimento. Isso é mais seguro e reduz o tempo necessário de treino dentro do espaço.

 

10 - E finalmente, fiscalize

Todas essas medidas só aumentam a segurança da academia se forem propostas e efetivadas. Só estar no papel, como acontece em vários locais, não adianta de nada.

Estas são apenas algumas de outras várias recomendações que podem ser observadas. Ainda poderíamos falar sobre a posição e a ordem de utilização das máquinas para reduzir o contato de um aluno com o aerosol do outro, exercícios ginásticos e calistênicos que poderiam ser utilizados no ambiente aberto para substituir o setor de cardio, sistemas de treino na musculação que geram menor impacto sobre o cardiorrespiratório (e evitam maior transpiração e expiração), cuidados com a ventilação e fluxo de ar do ambiente, determinação de intervalos para aumento da renovação de ar, etc, etc.

Opções e boas iniciativas não faltam, apesar de não vermos a maioria das academias fazendo isso.

Se você gostou ou tem alguma dúvida, deixa aí seu comentário ou me manda um direct no instagram em @dr.ricardo.souza ou acessa o site da nossa consultoria científica a BRIEF Effort Club. Esse é nosso negócio.

Vamos ficar muito felizes em ajudar.

Se cuidem e bons treinos!

 

 

 

*Os textos produzidos pelo colaborador não expressam, necessariamente, a opinião dos outros participantes da comunidade, sendo 100% de responsabilidade do autor.

Interação Fitness
Ricardo Martins de Souza
Ricardo Martins de Souza Seguir

Dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário de empresa de consultoria científica no setor.

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