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BURPEE: uma ferramenta para treinos e testes

BURPEE: uma ferramenta para treinos e testes

Uns amam, outros odeiam, mas uma coisa é fato: o burpee foi uma das melhores invenções do século passado. Um exercício que envolve tanto membros superiores quanto inferiores, que leva ao desenvolvimento da resistência muscular e da aptidão cardiorrespiratória e que com certas adaptações, pode ser feito por qualquer pessoa. Mas você conhece sua origem?

De onde veio o Burpee?

Os primeiros registros de alguém executando tal movimento foram do fisiologista americano Royal Huddleston Burpee (daí o nome), no final dos anos 30, quando tentava desenvolver uma forma de melhorar e testar a aptidão física de diferentes indivíduos.

No início dos anos 40 o movimento se popularizou, já que foi incluído como parte do processo de avaliação do exército americano.

No Brasil, temos um movimento parecido, o meio-sugado, que também ficou popular nas forças armadas, e que é utilizado com o mesmo objetivo do seu equivalente americano.

Mas porque é interessante prescrever o burpee?

Primeiro, ele exige esforço de vários grupos musculares de forma simultânea. Os glúteos, quadríceps e isquiossurais, os extensores da coluna e músculos abdominais além parte anterior do tórax e posterior dos braços são alguns dos grupos musculares exigidos.

Segundo, em razão desse monte de músculo envolvido na atividade, o estresse sobre o sistema cardiorrespiratório acaba sendo grande, o que aumenta a frequência cardíaca e o fluxo de sangue nos músculos exercitados e no miocárdio, fundamental para o desenvolvimento de sistemas centrais, como o cardíaco e o pulmonar.

E finalmente, é um exercício simples e democrático. Todos conseguem fazer, mesmo que se exija pequenas adaptações. O controle da intensidade é simples, podendo ser realizado pela mudança na velocidade ou amplitude de movimento.

Incorporando os burpees nos treinos

Vou mostrar para vocês dois estudos que utilizaram o burpee dentro de sua metodologia. O primeiro, é um que investigou o efeito de diferentes modelos de treinos (musculação com pesos livres, exercícios com o peso corporal, corda naval e burpee) nas respostas agudas do organismo.

Os autores mediram o consumo de oxigênio necessário para fazer diversas tarefas, todas organizadas da mesma forma e com a mesma intensidade.

Os resultados indicaram que os treinos que envolviam a realização dos burpees estavam entre os que mais consumiam oxigênio, mostrando que é sim um movimento que exige muito do organismo.

O segundo, avaliou o efeito de dois programas de exercícios na composição corporal e resistência muscular localizada.

Um programa envolvia corrida moderada e contínua, enquanto outro programa, exercícios com peso corporal (polichinelo, agachamento, mountain climber e burpee).

Apesar de nenhum dos grupos apresentar alteração de composição corporal (o programa tinha só 6 semanas), o grupo que executou exercícios com peso corporal apresentou mudanças positivas na resistência muscular de membros superiores (teste de flexão no solo).

O curioso é que o movimento de flexão não foi utilizado isoladamente, mas faz parte do burpee. Isso mostra a capacidade que o movimento tem de exercitar diferentes grupos musculares.

E exatamente por essa característica de provocar um grande volume de estresse sobre diferentes sistemas que o burpee despertou a atenção de outros pesquisadores na intenção do desenvolvimento de uma ferramenta voltada para a avaliação física.

Diversos estudos já foram publicados e validados com essa perspectiva e queria apresentar aqui pra vocês um dos mais recentes.

Aptidão da resistência muscular em 3 minutos de burpees

Uma das propostas desenvolvidas foi publicada em um artigo no ano passado (PODSTAWSKI et Al., 2019) e envolve um score de 0 a 100 em razão do número de ciclos executados ao longo de 3 minutos consecutivos de movimento.

Ah, antes de mais nada é importante ressaltar que o movimento executado aqui é a variação chamada de “sprawl”, aquela em que o aluno agacha, fica na prancha e volta a ficar de pé. Não tem nem a flexão e nem o salto, ok?

Vou colocar a imagem do artigo original aqui pra vocês verem.

Apesar de ter sido desenvolvida com dados de indivíduos jovens (entre 18 e 25 anos), acredito que tenha uma grande utilidade em uma faixa etária dos 10 até 60 anos, desde que a pessoa não sinta desconforto e consiga realizar os movimentos.

O teste te retorna duas informações: uma escala de 0 a 100 (quantitativa) e uma classificação da aptidão (qualitativo) baseado nos dados de quase 10 mil pessoas testadas. 

O valor quantitativo serve para se verificar a evolução do aluno com maior precisão, enquanto o qualitativo para se verificar se o aluno está dentro dos valores recomendados.

Assim, depois de executar o maior número possível, vá até a tabela a seguir e veja o "score"do aluno, é bem simples:

Primeiro você acha na coluna “Cycles” o número de burpees que ele conseguiu fazer em 3 minutos. Mas lembre, não vale roubar e nem fazer pela metade. Tem que ser executado daquele jeito que está ali nas imagens, ok?

Depois procure nas colunas “T-scale” aquele em que ele se enquadra: “Men” ou “Women”, respectivamente.

O resultado vai de 0 a 100, com 0 sendo o pior e 100 o melhor resultado. Se você quiser traduzir isso em nível de aptidão, tem essa tabela que os autores fornecem.

Nela, existem 5 classificações: muito ruim (very poor), ruim (poor), médio (average), bom (good) e muito bom (very good).

Vamos ao exemplo!

Imagina que seu aluno é um homem e que ele executou 63 repetições em 3 minutos. Se formos ali na tabela do score, 63 repetições retornam um valor de 58 numa escala de 0 a 100. Assim, com 63 repetições ou score de 58, um homem ficaria como nível de aptidão “médio”. A ideia do score e do nível de aptidão é aumentar a precisão da avaliação.

Assim, você pode melhorar seu score, mesmo sem mudar sua classificação. Mas isso identificaria uma evolução.

Já uma mulher, com exatamente o mesmo desempenho (63 repetições) ficaria com score 66 e nível de aptidão “bom”.

E isso é esperado, já que o homem em geral consegue executar maior número de repetições para o mesmo intervalo de tempo.

E aí? Te dei argumentos suficientes pra incluir esse movimento em seus treinos e suas avaliações?

Grande abraço!

Interação Fitness
Ricardo Martins de Souza
Ricardo Martins de Souza Seguir

Dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário de empresa de consultoria científica no setor.

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