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ESTEROIDES ANABOLIZANTES: AS CONTAS QUE NINGUÉM FAZ!

ESTEROIDES ANABOLIZANTES: AS CONTAS QUE NINGUÉM FAZ!

Eu ainda me impressiono com a taxa de popularização e banalização que o uso de esteroides, especialmente dentro do fitness, tem conseguido.

Parte eu acho que é pela irresponsabilidade de quem usa e quem faz apologia ao uso... outra parte, pela falta de informação, que acaba levando a suposição que “existiria” uma forma segura de administrar e controlar seus efeitos.

Até porque, pensa comigo... um corpo todo musculoso e sarado não pode ser menos saudável do que uma barriguinha aparente, não é? #sqn

Bom, mas o texto de hoje não é pra te dar respostas, e sim pra fazer você pensar em algumas coisas, principalmente sobre a lógica de funcionamento e o propósito do uso de tais substâncias.

Aí depois você decide o que fazer, ok?

O que são esteroides anabolizantes?

Os esteroides anabolizantes ou esteroides androgênicos anabólicos, são substâncias químicas sintéticas que mimetizam os efeitos de hormônios que produzimos naturalmente, como a testosterona, e no fitness são utilizados no desenvolvimento rápido do tecido muscular.

Como são esteroides, eles conseguem entrar facilmente dentro das células, se ligar a receptores, e acelerar o processo de transcrição de parte do DNA (lá dentro do núcleo) que vai incentivar tanto a hipertrofia (crescimento da célula) quanto a hiperplasia (a multiplicação do número de células) musculares.

**NOTA: só pra constar... um tumor é uma hiperplasia descontrolada de um tecido, ok?

Essas substâncias são tão poderosas e eficientes nesse papel que alguns estudos já demonstraram que o resultado da hipertrofia causada pelos esteroides, em pessoas sedentárias, é maior do que o resultado conseguido por pessoas que treinam, mas não usam tais substâncias (Bhasin et Al., 1996).

Isso mesmo: tomar esteroide é mais eficiente do que treinar. Se quiser saber mais, olha esse outro texto aqui no portal.

Não por acaso, esses medicamentos são utilizados em sujeitos acamados, pessoas com doenças degenerativas do sistema músculo esquelético, pessoas com dificuldade de desenvolvimento na infância e adolescência, queimados que precisam recuperar a pele, entre outras aplicações.

Sendo assim, enquanto medicamento que atua diretamente na célula, o seu desenvolvimento exigiu uma série de estudos, principalmente para definir a posologia ideal (como tomar) e seus possíveis efeitos colaterais. Vamos falar um pouco disso...

Uso terapêutico, uso estético e efeitos colaterais dos esteroides anabolizantes

Para ilustrar o que eu quero dizer, eu fiz uma coisa bem simples: procurei na internet orientações para o uso terapêutico do medicamente (bula do remédio) e para o uso estético (livros e sites que fazem apologia ao uso).

Não sei se alguém já teve a paciência de fazer isso, mas toda vez que eu faço a conta, eu me assusto.

Pra não dizer que os dados são falsos, vou colocar aqui o print desses documentos, e vou usar dois bem famosos para ilustrar: o deca-durabolim e o durateston.

Deca-durabolin (decanoato de nandrolona) é vendido em diferentes concentrações, normalmente em ampolas de 1mL (óleo de amendoim e álcool benzílico). Aqui temos com 25mg e 50mg da substância dissolvidas nesse volume.

Na própria bula consta como uma administração comum a utilização de uma injeção a cada 2-3 semanas. Isso significa que seria administrado, como finalidade terapêutica, no máximo 50mg a cada 14 dias.

Entretanto, é muito fácil encontrar recomendações de uso de até 200mg por semana! Isso seria 800% a dose terapêutica. Aquela dose que provavelmente foi testada em estudos científicos. Aquela dose que temos segurança não em evitar, mas em controlar os efeitos colaterais. Já falo deles mais pra frente.


Ah, só pra constar... na recomendação de uso 800% acima da dosagem terapêutica, ainda existe a combinação de outros esteroides. Não é só ele.

Um outro esteroide bem comum é o Durateston (propionato + fempropionato + isacaproato + decanoato de testosterona), também injetável e normalmente em ampolas de 1mL contendo 176mg de testosterona.

Assim como no anterior, é recomendável a administração de 1mL a cada 3 semanas, ou seja, aproximadamente 58mg por semana.

Entretanto, volta ali na imagem anterior e olha a recomendação quando a finalidade é hipertrofia: 750mg... por semana! Isso é 12x (DO-ZE-VE-ZES) ou 1200% a dosagem terapêutica. E novamente, a administração é combinada com outros esteroides.

Você realmente acha que tem forma disso ser seguro?

Me desculpe os otimistas (pra não chamar de outra coisa), mas como você consegue dizer que é seguro esse volume de administração?

Quer fazer uma analogia, vamos lá: se você já ficou com dor de garganta, pode ter utilizado alguma vez um anti-inflamatório, como o Cataflam (diclofenaco potássico).

Na pior das hipóteses, a posologia recomenda fazer uso desse medicamento de 6-6 horas. Se você aplicar a mesma regra do Durateston, você vai me dizer que é seguro passar a tomar tal medicamento de 20min em 20min. Durante uma semana!

O que você acha disso? Tranquilo?

E não ache que fazendo hemogramas você consegue controlar o que acontece dentro de você. Um hemograma te dá o básico sobre alguns aspectos.

No meu Instagram eu escrevi um tempo atrás sobre os efeitos desse tipo de medicamento sobre o sistema cardiovascular, e mostrei uma série de aspectos que não podem ser controlados por um simples exame de sangue.

Isquemia, infarto, arterioesclerose, redução da capilaridade cardíaca, hipertrofia ventricular, trombose coronariana e arritmias são algumas alterações (Nascimento e Medei, 2011). E olha que eu só falei do coração, nem tô falando de todo o resto.

Isso justifica um risco de morte 460% maior em usuários, sendo que 37,5% das mortes são associadas a problemas cardíacos (Parssinen et Al., 2000).

Dificilmente verificados em hemogramas.

Agora você decide aí se vale a pena o risco. Aproveita e pergunta pra sua esposa e seus filhos o que eles acham também.

Cuidado, grande abraço e bons treinos.

Interação Fitness
Ricardo Martins de Souza
Ricardo Martins de Souza Seguir

Dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário de empresa de consultoria científica no setor.

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