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Liberação miofascial: porque isso não faz o menor sentido

Liberação miofascial: porque isso não faz o menor sentido

Fala galera que curte quebrar um paradigma, tudo bem? Então, hoje o tema é sobre algo que nos últimos anos ganhou cada vez mais espaço no fitness, a liberação miofascial.

E eu acho que não foi só no fitness não. Na reabilitação, na estética, no fisiculturismo, em todos os espaços onde o músculo tá envolvido, aparece uma aplicação de técnicas de liberação miofascial.

Mas a pergunta é a seguinte: isso existe? Funciona? E pra que?

Bom, antes de mais nada, precisamos entender o que é a fáscia, do que ela é formada e como ela se comporta dentro da gente.

A Fáscia e a mecânica muscular

Primeiramente temos que deixar claro que o termo fáscia se refere a uma grande quantidade de estruturas, todas feitas de tecido conjuntivo, e que apesar de serem bem parecidas, não tem exatamente a mesma função dentro da gente.

Essas estruturas podem estar dentro do músculo, ao redor deles, entre o músculo e a pele, e em diferentes outros locais.

Especificamente no músculo, já que o termo é liberação miofascial (mio = músculo) a fáscia pode ser encontrada e classificada de três formas.

Ela pode ser a fáscia que envolve individualmente cada uma das fibras musculares, separando-as, mas também servindo como um ponto de conexão que ajuda na transmissão de cargas entre as fibras. Nesse caso, recebe o nome de endomísio.

Ela pode estar ao redor de um conjunto de fibras, os fascículos, criando feixes que atuam de forma sincronizada e receber o nome de perimísio.

Ou então envolver o músculo como um todo, dando rigidez ao tecido e separando uns dos outros, permitindo assim um movimento com menor resistência e atrito. Nesse local, recebe o nome de epimísio.

 

Do que as fáscias são feitas?

Como toda estrutura de tecido conjuntivo, as fáscias são feitas de 5 substâncias:

  1. Colágeno
  2. Elastina
  3. Água
  4. Proteoglicanos e
  5. Algumas pequenas proteínas.

De longe, no caso das fáscias, a base de sua constituição é o colágeno, o que dá ao tecido sua principal característica: a resistência à tração. Isso mesmo, a fáscia é um tecido que tem como característica principal a quase inelasticidade. Sim, ela praticamente não estica.

Só pra ter uma ideia, o colágeno é tão resistente à tração que chega a ser mais resistente do que o próprio cabo de aço!

E isso é fundamental quando a gente for falar de sua função.

Outra curiosidade... olha esses dados aqui: em um artigo publicado 2008 no Journal of American Osteopathic Association (CHAUNDRY et Al., 2008), um modelo matemático foi desenvolvido para estimar a força necessária para alongar diferentes tipos de fáscias existentes em nosso corpo.

Os valores colocados lá foram em Newtons, mas eu vou traduzir em Kg para ficar mais fácil a compreensão, ok?

Pois bem, se quiséssemos alongar a nossa fáscia presente na banda ilío-tibial, aquela que o pessoal massageia quando coloca o rolinho na lateral da coxa, seria necessária uma força equivalente a 1.320kg... e isso provocaria um alongamento de aproximadamente 1% na fáscia!

Outra... sabe aquela fáscia que tem na sola do nosso pé, a fáscia plantar? Então, pra alongar ela em 1% seria necessária uma carga equivalente a 660kg, pra provocar 1% de alongamento.

E por fim, qualquer outra fáscia, mesmo as mais finas e delgadas, precisariam de pelo menos 360kg de força pra conseguir produzir alongamentos praticamente inexistentes.

Mas a bolinha e o rolinho vão conseguir fazer isso, não é mesmo? “Çei”...

Para que servem as fáscias?

As fáscias musculares tem diversas funções, mas não faz sentido você colocar um monte de colágeno em um tecido e depois acreditar que ele pode ser alongado.

A fáscia tá lá pra evitar esse tipo de movimento.

Sem as fáscias, a estrutura de nossos músculos seria completamente destruída na primeira contração mais intensa ou alongamento mais veloz, assim como em qualquer impacto recebido.

As fáscias mantém nossos músculos com a forma que eles tem.

Mas não é só isso, como elas são solidamente fixadas aos músculos (quem já tentou separar a “pelanca”, um tipo de fáscia, da carne que iria assar, sabe o que estou falando) elas também ajudam na dissipação de cargas.

Elas funcionam como cabos extremamente rígidos, que são alongados juntamente com os músculos, e recebem a responsabilidade de lidar com parte da carga mecânica que o tecido recebe.

Alguns autores já discutem inclusive que a fáscia não parece ser um tecido puramente passivo, recebendo carga e liberando a energia de forma elástica. Parece que mesmo em contrações onde os músculos não recebem um pré-estiramento, elas tem um papel de ajudar na contração.

Literalmente uma estrutura multi funcional.

Se as fáscias não podem ser alongadas, o que dá pra fazer então?

Bom, pra alguma coisa até serve... mas não para a maioria das coisas que a galera defende.

No ano passado, no revista Frontiers in Physiology (WIEWELHOVE et Al., 2019) saiu uma meta-análise que compilou mais de 20 artigos experimentais utilizando a técnica mais comum de liberação miofascial, o tal do “foam roller”. Esse rolinho da imagem aqui de baixo, feito de espuma e/ou borracha, que a galera usa pra fazer esse tipo de intervenção, sabe? Pois bem...

Os autores encontraram evidências de que esse tipo de equipamento pode ser útil para o aumento temporário da flexibilidade, assim como acontece com qualquer exercício de alongamento.

Além disso, em atletas de elite, o seu uso durante o aquecimento parece ter sido levemente benéfico para a melhora da performance ou para a recuperação entre tiros nas sessões de treinamento.

Entretanto, nenhuma evidência razoável foi encontrada sobre sua efetividade em: liberar a fáscia, ajudar a reduzir as adesões causadas por lesões musculares ou na própria fáscia, ajudar na remoção de metabólitos, do lactato ou no aumento do fluxo sanguíneo ou mesmo acelerando o processo de recuperação muscular ou na redução da dor tardia.

Muito melhor ir pra casa descansar e beber um suco.

Vale a pena destacar ainda que o tempo gasto nesse tipo de estratégia, buscando uma rápida recuperação, poderia ser utilizado em estratégias bem mais eficientes.

Eu sei, você vai dizer ”...ah, mas eu sinto melhora, pra mim e para meus pacientes funciona...”

Sim, eu também tenho minhas CRENÇAS, mas nem por isso trato isso como evidência científica, não é?

Bons treinos... de preferência sem liberação miofáscial, rsrsrs

Interação Fitness
Ricardo Martins de Souza
Ricardo Martins de Souza Seguir

Dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário de empresa de consultoria científica no setor.

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