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METABOLISMO DE GORDURA: UM PASSO-A-PASSO DESCOMPLICADO

METABOLISMO DE GORDURA: UM PASSO-A-PASSO DESCOMPLICADO

Fala pessoal!!

O assunto hoje é metabolismo de gordura. Vamos tentar entender como isso ocorre dentro de nosso organismo e então deduzir quais são as melhores estratégias para o emagrecimento.

De início eu já adianto para vocês: o metabolismo da gordura não é uma coisa fácil de se conseguir. Você tem que pensar como sistema biológico. Por que eu facilitaria a redução da minha reserva de energia? Por que eu abriria mão de minha garantia quando a alimentação estiver escassa?

A gordura corporal tem como uma de suas principais funções (não a única) fornecer uma fonte de energia quando a dieta estiver de certo modo restrita ou quando o consumo de energia exigido pelo organismo for acima do normal.

E aqui já conseguimos chegar a um primeiro ponto importante, que o metabolismo da gordura é fortemente influenciado pela qualidade de sua dieta e pelo volume e intensidade de seus exercícios. Não dá pra ignorar essas coisas, nem para dizer que um fator é mais importante que o outro.

Com meus alunos, eu sempre utilizo o mesmo exemplo: qual das rodas de uma bicicleta é mais importante? Exato. As duas tem o mesmo peso no pedalar... com dieta e exercício, é a mesma coisa. E se alguém um dia te disser o contrário, ou tentar colocar valores nessa importância (ex.: “... ah, dieta é 80%... exercício é 20%...”) essa pessoa não entende de emagrecimento, pode confiar.

Por que a gente estoca gordura?

Por vários motivos. O primeiro, como falei lá em cima, pela garantia de ter energia em situações onde a ingestão é limitada, como o período que você dorme, por exemplo.

Outras funções envolvem:

  •  o auxílio no controle da temperatura,
  • substrato para a produção de diferentes hormônios,
  • material para a construção de inúmeras estruturas
  • entre tantas outras.

Por isso, reduzir a concentração de gordura no corpo é expor ele a uma condição menos “favorável” para todas essas funções biológicas.

Em nosso corpo os principais estoques de gordura são observados sob a pele (depósitos subcutâneos), entre os órgãos (intra-abdominal ou inter-visceral) e no sangue. Os dois últimos, sem dúvidas, são os que oferecem mais risco à saúde quando em excesso, mas o primeiro, o subcutâneo, é muito maior.

Nos depósitos subcutâneos e intra-abdominal, a gordura fica estocada dentro de células específicas, o adipócito. Essa célula tem a capacidade de aumentar, e muito, seu tamanho, estocando quantidades enormes de triglicerídeos, o tipo de gordura mais comum em nosso organismo.

Como retirar o triglicerídeo (TG) dos adipócitos?

O triglicerídeo é um tipo de gordura formado pela união de 3 ácidos graxos (AG) e um glicerol. Ele fica guardado dentro do adipócito e só sai de lá se uma série de reações acontecerem. Essas reações são iniciadas pela ativação de uma enzima chamada lipase.

Para que consigamos ativar a lipase, normalmente utilizamos a secreção de alguns hormônios, já que a lipase é hormônio-sensível.

Sendo assim, se conseguirmos hormônios, ativamos a lipase e se ativarmos a lipase, liberamos a gordura. Essa fase é chamada de mobilização.

E quais são e como conseguimos esses hormônios?

Existem vários hormônios que podem ajudar na ativação da lipase, dentre eles, podemos destacar o GH, o cortisol, a adrenalina e a noradrenalina. Os dois últimos, sem dúvidas, são hormônios muito importantes nesse processo, e são chamados de catecolaminas.

As catecolaminas podem ter sua secreção influenciada, e muito, pela prática de exercícios. Da uma olhada nesse gráfico aí abaixo.

Se você observar, a noradrenalina já começa a aumentar quando o exercício ultrapassa 20% do VO2máximo, um esforço considerado muito leve. E ela vai subindo gradativamente, tendo seu pico em atividades próximas à 100%.

Já a adrenalina só vai apresentar um aumento significativo em atividades mais intensas, entre 60-80% do VO2máximo. Atividades leves e moderadas, não provocam muito sua secreção.

Só que você quer muito que sua secreção aumente. A adrenalina especialmente, tem uma relação direta com a redução da gordura abdominal.

Isso mesmo! Conseguir aumentar a secreção de adrenalina não só reduz sua gordura corporal, como acaba propiciando uma redução mais significativa da gordura do abdome. Mas pra isso, o exercício deve ser intenso!

E depois que o TG é liberado?

Depois de você conseguir mobilizar a gordura, ela é separada em cortisol e ácidos graxos livres (AGL). O cortisol transita livremente pelo sangue enquanto os AGL geralmente precisam ser transportados, já que o sangue é um ambiente aquoso, e gordura e água não se dão muito bem. O principal transportador dos AGL no sangue é a albumina.

Chegando no músculo é necessário fazer com que os AGL entrem na célula, e isso só é possível a partir de estruturas específicas, proteínas encontradas na membrana da célula e que permitem isso.

Sendo assim, o fato de ter mais gorduras circulando, não significa mais gordura sendo usada no músculo. Só vai entrar se a célula permitir.

E é aí que uma série de tratamentos entra em cheque. Criolípólise, aplicações de substâncias que “dissolvem a gordura”, dieta para “quebrar” os adipócitos... NADA, absolutamente NADA disso funciona.

Mesmo que você conseguisse liberar mais gordura no sangue (o que é IMPOSSÍVEL), isso não significa mais gordura entrando no músculo. Ela seria então re-convertida em reserva em qualquer outra parte do seu corpo. E fim. Você não vai emagrecer nada.

E dentro da célula, como eu uso gordura?

Se esse AGL que você liberou conseguiu entrar dentro do músculo, parabéns... mas você ainda não conseguiu utilizar ele. Ele pode, por exemplo, ser novamente convertido em reserva, mas agora de triglicerídeo (TG) intramuscular.

Mas essa seria uma coisa muito boa, já que o TG intramuscular é uma fonte importante de energia no exercício, principalmente o contínuo, prolongado e de intensidade moderada.

Mas se o objetivo é converter essa gordura em energia, o processo é longo.

Primeiro ela vai ser conduzida, por outra proteína carreadora, até a mitocôndria (imagem abaixo). A mitocôndria é a estrutura dentro da célula que, utilizando oxigênio, consegue transformar gordura em energia.

Num primeiro momento, o AGL é fracionado em um processo chamado oxidação beta, que vai “quebrando” a gordura em pequenos pedaços. Depois, ela é encaminhada até o ciclo de Krebs, que prepara o ambiente para a geração de energia. E finalmente um processo chamado de transporte de elétrons consegue utilizar os átomos de hidrogênio do AGL, junto com o oxigênio que você respira, em água. A formação dessa água ativa uma enzima que sintetiza a energia. Os carbonos do AGL são liberados, também junto com o oxigênio, na forma de CO2, na sua expiração.

No final o que sobra é energia, água e CO2.

O que pode acelerar o consumo dessa gordura dentro da célula?

Novamente, o exercício. O intenso.

Toda vez que você faz um exercício intenso, você causa uma alteração do equilíbrio orgânico. Você dá uma “bagunçada” no seu corpo. E isso exige que você gaste energia, durante o REPOUSO para arrumar tudo isso.

Durante esse retorno ao equilíbrio, sua célula fica mais predisposta a consumir gordura. Desse modo, ela permite a entrada de mais gordura, ela transporta melhor isso até a mitocôndria e também gasta mais oxigênio na sua oxidação.

Se o exercício é leve, não tem por que fazer isso com mais intensidade, já que o “desequilíbrio” causado pelo exercício foi pequeno.

Some a isso o fato de que o exercício mais intenso também causa microlesões nos tecidos, que precisam ser reparadas no repouso, e também exigem gasto de energia. Adivinha de onde? Isso mesmo, gordura.

Se você soma isso a uma dieta adequada, sem excessos de gordura e carboidratos, que seriam a primeira opção de fonte de energia para a recuperação, você vai obrigar seu organismo a abrir mão de sua própria reserva para conseguir energia para a recuperação... e você emagrece.

Esse efeito de aumento de gasto de energia no repouso é mensurável e recebe o nome de EPOC (excess post exercise oxygen consumption ou excesso do consumo de oxigênio após o exercício). O EPOC nos permite confirmar que após o exercício, especialmente o mais intenso ou prolongado, o corpo aumenta muito o gasto de energia para se recuperar. Olha aí abaixo a comparação entre o exercício leve (light) e intenso (heavy).

Lembre-se disso:

Você não emagrece no exercício. Você emagrece porque usou exercício para criar um ambiente favorável ao consumo de gorduras. E esse ambiente é conseguido com atividades intensas, intervaladas, que envolvem levantamento de peso, e não com aquela caminhadinha confortável.

Bons treinos!

 

Interação Fitness
Ricardo Martins de Souza
Ricardo Martins de Souza Seguir

Dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário de empresa de consultoria científica no setor.

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