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"Não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã"... Hã?

Você já ouviu falar na boa e velha frase “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje"? Pois bem, isso é o que muitas pessoas adotam quando pensam na prática de exercícios físicos.

Independente de qual seja a prática, a mente humana é tomada por esse pensamento de “vou deixar para amanhã". Muitos potenciais alunos ou clientes optam por começar na segunda-feira, mas aí passa a semana e, novamente, vem aquele pensamento de “já é quarta-feira, na próxima segunda eu começo sem falta”.

E assim acontece o ciclo vicioso do seu possível aluno que não inicia nada para atingir o objetivo desejado. É nesse momento que você, personal training, pode utilizar das neurociências para entender os motivos desse comportamento procrastinador.

Algo interessante acontece, por exemplo, quando seu aluno faz uma consulta médica e descobre que está com alguma patologia, como esteatose hepática, colesterol e triglicérides elevadíssimos, até mesmo placas de gordura nas carótidas (o que pode levar a um AVE: Acidente Vascular Encefálico, o famoso “derrame”).

Então chega você, profissional de educação física ou médico, e diz “comece um exercício físico urgente”. Mais uma vez, o aluno procrastina e deixa para a outra segunda-feira. Até que o corpo dele dá alguns sinais que podem ser desagradáveis. Bingo! No outro dia ele estará lá na esteira, bicicleta, academia, parque, enfim, iniciando o exercício porque esteve mal e uma espécie de ultimato lhe foi dado.

Diante dessa situação, pergunte para as pessoas que você ensina e treina:

  • Por que demorou tanto para começar?
  • O que levou a atrasar tanto em reservar uma hora do dia para alguma atividade para o “corpo”?
  • Precisava quase morrer?
  • Será que, por exemplo, o trabalho é mais importante?

Muito bem, existem explicações científicas do motivo desses atrasos, que deixam os profissionais da saúde incrédulos quando escutam desculpas, ou o famoso “migué”, que continuam sendo estudadas por muitos cientistas.

Professor, na real, o “migué” está relacionado aos nossos ancestrais, dos quais herdamos alguns comportamentos que são inatos como, por exemplo, “poupar energia”.

Para iniciar essa explicação preciso voltar alguns bons anos e trazer aspectos da nossa história evolutiva. O exemplo de “poupar energia” acontece devido há milhares de anos quando, para a nossa sobrevivência, precisávamos caçar, reproduzir, lutar e fugir de predadores. Obviamente, isso demandava energia!

Portanto, hoje nosso cérebro hoje que deve ficar quietinho no seu canto, estocando essa energia. Contudo, infelizmente ou felizmente, isso é um processo que fez com que evoluíssemos e pudéssemos estar aqui, escrevendo sobre esse tema.

O que estamos falando, obviamente, é sobre procrastinar. Interessantemente, quando seu cliente precisa fazer algo para emagrecer, por exemplo, mas o prazo está distante, ocorre a não atenção e organização do dia para treinar, e ele fará coisas que lhe traz satisfação.

Porém, quando o verão já começou, o prazer desaparece e a busca por treinos mágicos ocorre, deixando seu aluno ansioso e não sentindo ânimo para executar o que poderia ter feito muito tempo atrás. É o famoso “eu sei lidar com a pressão”.

Acredito eu que, nesse caso, não seja bem assim. Isso justifica o motivo de muitas pessoas deixarem para cuidar da aparência, pretendendo emagrecer 10kg de maneira saudável em 30 dias, antes de irem para praia, querendo milagre, o que é impossível.

Saiba você, professor, que existem estudos científicos relacionados a procrastinação. Alguns neurocientistas descobriram que, indivíduos com menor satisfação com a vida, baixa percepção de bem-estar e estressados, assistem mais televisão e jogam mais videogame, quando comparados com sujeitos com menos estresse e melhor qualidade de vida.

Além disso, essas pessoas sofrem de ansiedade e/ou depressão. E, aproveitando, se você verificar ou lhe for relatado sintomas dessa situação, oriente seu aluno para que faça um exame verificando o cortisol (o hormônio do estresse). Em conjunto com demais profissionais, analise se as concentrações desse hormônio estão extremamente elevadas ou quase zeradas na corrente sanguínea. Se isso aconteceu, uma consulta com um endocrinologista é necessária.

Procrastinadores exibem menor capacidade de tomar decisões que permeiam objetivos de longo prazo, possuem dificuldades em traçar metas e não conseguem inibir comportamentos indesejados que atrapalham as obrigações do dia-a-dia (o exemplo do videogame).

Isso está ligado com maior impulsividade, perfeccionismo e medo do erro, o que evoca memórias com emoções consideradas negativas sobre alguma tarefa complexa, por isso acontece a fuga do aluno para coisas que geram prazer instantâneo, liberando então dopamina no cérebro. Tal comportamento se repete e vira uma espécie de vício.

Toda vez que o celular tocar mostrando mensagem ou curtidas nas fotos do Instagram e ele for checar, receberá recompensa. Haja dopamina professor.

Após as explanações e exemplos básicos sobre como o cérebro do procrastinador funciona, oriente as pessoas que você conhece que são assim a fazer algumas tarefas:

  • Anotar os gatilhos que impedem de fazer os compromissos de maneira antecipada e planejada;
  • Escrever, não digitar, pois o cérebro será mais ativado pela escrita e isso reforçará memória e aprendizado;
  • Repetir as anotações por um tempo todos os dias;
  • Procurar refletir sobre o que foi anotado e como mudar o pensamento;
  • Trocar experiências e ouvir outras pessoas;
  • Tentar pensar em metas curtas.

Obviamente que estamos falando do exercício. Discuta com seu cliente opções que gerem emoções positivas. Algo com emoções neutras, possivelmente, não irá gerar prazer e a liberação da nossa conhecida dopamina pode ser insignificante para recompensá-lo.

Se ele falhar, lembre-o que somos humanos e que o erro é o acerto em processamento, motive-o a tentar novamente, quantas vezes forem necessárias.

Por fim, pense junto com ele para acharem um horário do dia em que esteja se sentindo melhor e assim associar com exercício. Se ajustem o quanto for necessário e quando os resultados vierem e se repetirem, possivelmente a motivação aumente, daí é só correr para o abraço.

 

*Os textos produzidos pelo colaborador não expressam, necessariamente, a opinião dos outros participantes da comunidade, sendo 100% de responsabilidade do autor.


REFERÊNCIAS

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Fernie, B. A., Bharucha, Z., Nikčević, A. V., Marino, C., & Spada, M. M. (2017). A Metacognitive model of procrastination. Journal of Affective Disorders, 210, 196–203. https://doi.org/10.1016/j.jad.2016.12.042

Kubey, R. W., & Csikszentmihalyi, M. (1990). Television as Escape: Subjective Experience Before an Evening of Heavy Viewing. Communication Reports, 3(2), 92–100. https://doi.org/10.1080/08934219009367509

Liu, P., & Feng, T. (2019). The effect of future time perspective on procrastination: the role of parahippocampal gyrus and ventromedial prefrontal cortex. Brain Imaging and Behavior, 13(3), 615–622. https://doi.org/10.1007/s11682-018-9874-4

Nordby, K., Løkken, R. A., & Pfuhl, G. (2019). Playing a video game is more than mere procrastination. BMC Psychology, 7(1), 1–12. https://doi.org/10.1186/s40359-019-0309-9

Wu, H., Gui, D., Lin, W., Gu, R., Zhu, X., & Liu, X. (2016). The procrastinators want it now: Behavioral and event-related potential evidence of the procrastination of intertemporal choices. Brain and Cognition, 107, 16–23. https://doi.org/10.1016/j.bandc.2016.06.005

Wypych, M., Michałowski, J. M., Droździel, D., Borczykowska, M., Szczepanik, M., & Marchewka, A. (2019). Attenuated brain activity during error processing and punishment anticipation in procrastination – a monetary Go/No-go fMRI study. Scientific Reports, 9(1), 1–11. https://doi.org/10.1038/s41598-019-48008-4

Zacks, S., & Hen, M. (2018). Academic interventions for academic procrastination: A review of the literature. Journal of Prevention and Intervention in the Community, 46(2), 117–130. https://doi.org/10.1080/10852352.2016.1198154

Zhang, S., Liu, P., & Feng, T. (2019). To do it now or later: The cognitive mechanisms and neural substrates underlying procrastination. Wiley Interdisciplinary Reviews: Cognitive Science, 10(4), 1–20. https://doi.org/10.1002/wcs.1492

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Professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, atuante no curso de Educação Física, Doutor em Biociências, amante das Neurociências

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