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2020: O ano que marcará a forma como nos exercitamos

2020: O ano que marcará a forma como nos exercitamos

Me recordo de Men In Black (MIB) e tenho certeza que a grande parte dos leitores também deve se lembrar da famosa máquina que apaga a memória, o “desneuralizador”.

Pois bem, 2020 poderia fazer parte de um corte temporal para muitos. Na área do fitness, alguns proprietários de academias, box de CrossFit, studios e espaços de treinamento até gostariam de passar pelo clássico aparelho.

Já lemos muitas vezes aqui excelentes artigos sobre as possibilidades para enfrentarmos esse período difícil. Novas estratégias para manter o espaço funcionando, novos métodos e sistemas de trabalho que podem muito bem contribuir para reduzirmos as perdas de 2020.

Provavelmente 2021 (caso já tenhamos passado por esta pandemia) será um ano em que tenhamos aprendido a conviver com menos, isso é um fato: menos funcionários, menor público, menores espaços e menos dinheiro em caixa.

Como já coloquei por aqui na coluna anteriormente, não acredito que tenhamos mudanças pessoais, subjetivas significativas, sou cético quanto à isso, mas as mudanças estruturais são essenciais para nossa sobrevivência nas décadas que virão e, dentre elas a convivência com o mínimo parece ser certa.

Contudo, quando falamos de cuidados com o corpo mediante o exercício físico, estamos acompanhando um fenômeno interessante.

O aumento das aulas e acompanhamentos de exercícios domésticos pelas ferramentas remotas ganham cada vez mais espaço revelando que, muito provavelmente que o que os estavam impedindo de manterem-se ativos eram os sistemas tradicionais de busca de treinamento e orientação.

Pesquisa aponta que as pessoas estão se exercitando mais em casa

Pesquisa aponta que as pessoas estão se exercitando mais em casa

Paul Rondo (2020) pesquisou 12.913 participantes de 139 países entre 24 e 30 de março para coletar dados sobre como o Coronavírus mudou as rotinas de atividade física.

Curiosamente observou-se que as pessoas estão se exercitando com maior frequência do que antes da Pandemia. Vejamos os principais resultados da pesquisa:

  • Pessoas que normalmente se exercitam até 1-2 vezes / semana aumentaram a atividade 88% em media
  • Pessoas que normalmente se exercitam até 3 vezes / semana aumentaram a atividade 38% em media
  • Pessoas que normalmente se exercitam 4 ou mais vezes por semana diminuíram a atividade em 14% em media.

Por mais que seja apenas um estudo, observamos uma mudança paradigmática: As pessoas sentem-se mais a vontade em casa e sentem a necessidade da prática do exercício, têm mais tempo, evidenciando que sim, o tempo é um fator fundamental para prática do exercício e que, não, a falta de vontade para a prática de exercício não é apenas a preguiça, mas provavelmente a dificuldade de deslocamento aos locais de treino.

Vemos que estes dados foram levantados com indivíduos que, pelo menos já possuíam o hábito do treino e é neste ponto que eu gostaria de começar minha reflexão.

Sabemos que a frequência de atividade física do brasileiro está longe da ideal, contudo, os já praticantes aumentaram significativamente sua frequência de treinos nesta pandemia. O que está ocorrendo? Ouso afirmar que há algo maior do que simplesmente o habito da prática.

Podemos seguir o determinismo biológico e afirmar que o vício pela endorfina liberada pela exercício, de certa forma vicia o praticante obrigando-o a manter-se ativo. Mas creio que não seja apenas isso.

Acredito que o constante estímulo à formação de hábitos que vão sendo adquiridos pelo homem como membro da sociedade seja o fator principal para manter estes indivíduos ativos. Podemos chamar isso de cultura.

Este conjunto de hábitos, podem ser adquiridos de várias formas ao longo das gerações, mas curiosamente não estávamos logrando sucesso em angariar mais praticantes de exercícios físicos pelos métodos tradicionais - artigos científicos, propagandas, exposições, congressos, entrevistas, palestrar, etc.

Proponho colocar o ano de 2020 como um ano chave para olharmos o estímulo às práticas corporais, especialmente ao fitness de forma diferenciada, algo para além das estratégias tradicionais de Adesão e Aderência.

Profissionais de Educação Física devem ir além do que apenas prescrever e acompanhar treinos

Vemos um fenômeno interessante que nos coloca à força a necessidade de estimular o hábito da prática. O profissional de saúde, especialmente o de Educação Física, não pode mais ser o indivíduo com boas habilidades técnicas (não é mais do que sua obrigação), mas o direcionador e implementador de uma cultura do exercício e isso só pode ocorrer com uma mudança de discurso: mais sobre os benefícios do treinamento e menos sobre a estética. Mais sobre as possibilidades de variar os treinos e menos sobre forçar a continuidade da mesma prática.

Se a Escola não conseguiu implementar a cultura da prática do exercício nas aulas de Educação Física - o que Mauro Betti (2007) chamou de cultura corporal de movimento - não por ser agradável ou legal, mas por ser, simplesmente importante, cabe agora aos espaços reservados exclusivamente aos exercícios fazerem isso.

Talvez em uma próxima crise não precisemos nos preocupar tanto com a quantidade de clientes, uma vez que o exercício, para a grande maioria, finalmente torne-se parte de quem ele é.

Sugiro aqui a leitura e a pesquisa de dois importantes materiais que ilustram bem a ideia, como o desafio JFK e o Pronto pra o Trabalho e a Defesa. Iniciativas Norte Americana e Russa respectivamente que mostram como implementar a cultura do exercício em seus Países.

Concorda? Discorda? Comente abaixo, vamos conversar!

Nos vemos em breve!

 

Referências:

BETTI, Mauro. Educação física e cultura corporal de movimento: uma perspectiva fenomenológica e semiótica. Journal of Physical Education, v. 18, n. 2, p. 207-217, 2007.

Готов к труду и обороне СССР» Gotov k trudu i oborone SSSR - GTO https://en.wikipedia.org/wiki/Ready_for_Labour_and_Defence_of_the_USSR

JFK Challenge.  https://www.jfklibrary.org/learn/about-jfk/jfk-in-history/physical-fitness

LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. Zahar, 2002.

RONDO, P. Atividade Física Aumenta 88% Durante O Covid-19 https://www.adventuremag.com.br/mercado/2020/pesquisa-atividade-fisica-aumenta-88-durante-o-covid-19-estudo-com-12-913-pessoas/

Interação Fitness
Thiago Pimenta
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Graduação Educação Física-UNESP Graduação Pedagogia-Uninove Especialização Esporte Escolar-Unb Mestrado Sociologia-Ufpr Doutorado Ciências da Motricidade-Unesp

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